“Vivemos o livre comércio, quem pagar mais, leva”

16/03/2021 21:17

Giuliano Ferronato, diretor da Corretora Mercado, fala sobre a origem do aumento do arroz no Brasil

No próximo dia 30 de março acontece a celebração da colheita do arroz orgânico safra 2020/2021 do Movimento Sem Terra no Rio Grande do Sul.

A produção do MST abrange 14 assentamentos da Reforma Agrária situados em 11 municípios gaúchos. Isso coloca o Movimento na posição de maior produtor de arroz orgânico da América Latina, conforme o Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA).

De acordo com o Grupo Gestor, a região Metropolitana produz a maior parte do arroz livre de agrotóxico do MST, que é comercializado em todo o país e no exterior a preço justo.

Na contramão do que pode ser a alternativa para vencer a crise alimentar e a fome da população brasileira, atingida pela pandemia e pela maior taxa de desempregos da série histórica, temos um governo incapaz, omisso e negacionista, que vê o aumento do preço do arroz – que subiu mais 70% no último ano -, e de outros alimentos básicos da mesa do brasileiro como mero efeito colateral.

Nesse sentido, conversamos com Giuliano Ferronato, diretor da Corretora Mercado, que nos ajudou a entender como a falta de política, a desorganização do governo e o descaso com a segurança alimentar explicam esse cenário. Confira!

Ao que podemos atribuir a disparada no preço dos alimentos da cesta básica do brasileiro?

Em primeiro lugar, por conta da desvalorização do real frente ao dólar. É muito mais vantajoso e muito mais barato para um comprador de fora do Brasil comprar mercadoria aqui dentro, por outro lado, os compradores internos precisam travar uma batalha para chegar nos preços de exportação.

Outro fator é a pandemia, o isolamento aumentou o consumo dentro das casas, as pessoas passaram a cozinhar mais, o que impactou na questão do estoque, parte da população fez compras desenfreadas no início da pandemia, como o cenário ainda era muito incerto, os supermercados levaram esse aumento de consumo para as indústrias e essas, por sua vez, acharam que não iam conseguir fornecer. Além disso, os produtos agrícolas sofreram uma correção monetária inédita.

A falta de estoque regulador também interfere nesse processo?*

Vivemos o livre comércio, quem pagar mais, leva. Hoje o Brasil não tem estoques reguladores. Nós dependemos diretamente do produtor rural, mas quem dita as regras são os consumidores finais, cerealistas, engenhos, grandes corporações alimentares e etc. Não existe nenhum controle sobre oferta e demanda, deixando as “leis do mercado” regularem os preços, nem sempre a favor dos produtores, mas a favor das grandes redes atacadistas e varejistas.

Com o desmonte Conab ainda existe algum tipo de regulação dessa cadeia?

O que temos no Brasil hoje é o que chamamos de TEC (Tarifa Externa Comum), quando necessário, o país altera essa tarifa.

Mas nem sempre isso é possível. Para se ter uma ideia, hoje a TEC do arroz em casta é 11%, no ano passado houve um pedido de redução dessa tarifa. Essa redução, que não foi aceita, traria um impacto positivo para o consumidor porque reduziria o preço final de compra.

Mesmo diante desse cenário, o MST decidiu não subir o preço do arroz. Podemos afirmar que isso só é possível porque o Movimento respeita a cadeia produtiva e não faz especulação de mercado?

O arroz orgânico tem um valor agregado de 30% a mais do que o arroz convencional. A decisão de aumento ou não de preço cabe exclusivamente ao movimento, que não tem atravessadores, planta, produz, beneficia e comercializa. Portanto, é uma escolha social do MST fornecer alimento mais barato para a população. O ideal do movimento é uma alimentação que possa suprir com qualidade e a um preço justo as necessidades da população.  

* Segundo o site da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em agosto de 2020, a companhia tinha os seguintes irrisórios estoques: 21.592 toneladas de arroz, 28 toneladas de farinha de mandioca, zero de estoque de açúcar, 31 toneladas de café e zero de estoque de feijão. Comparado com a safra de grãos 2019/2020, dados de setembro 2020, a saber: arroz 11,2 milhões de toneladas; feijão 3,3 milhões de toneladas; milho 102,5 milhões de toneladas; soja 124,8 milhões de toneladas. Isto significa, que o governo não tem estoque regulador para enfrentar momentos difíceis como o que estamos vivendo.

FONTE: mst.org.br

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